“Reemprego” em vez de desemprego

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Manoel Rubim da Silva. Contador.
Auditor da Receita Federal do Brasil – aposentado. Professor no DECCA-UFMA.
Deixou-me profundamente impressionado, por duas razões, o conteúdo da entrevista concedida ao programa “Milênio” da “Globo News”, na última segunda-feira, pelo economista e escritor Daniel Susskind, professor das conceituadas Universidades de Oxford e Harvard, entrevista na qual o referido professor abordou a temática que aproveitei para intitular o presente artigo.
Primeiramente, fiquei surpreso com a sua aparente jovialidade, diante de seu conhecimento profundo – em que pese não endossar tudo o que ele afirmou na entrevista.    Em segundo plano, com a abordagem do tema, que foi objeto de um livro, do qual Daniel Susskind é coautor, com o seu pai, Richard Susskind, intitulado “The Future of the Professions”
No início do programa, o jornalista Silio Boccanera, diretamente de Londres, questionou Daniel sobre as preocupações das pessoas com o fim de algumas profissões, que poderiam ser alijadas do mercado pelo avanço das tecnologias. A resposta de Daniel vai ao encontro do que penso, há muito, sobre as profissões que não podem mais ser vistas isoladamente, tendo presente as complexidades das demandas atuais, ao contrário do que ainda está sendo ensinado nas escolas, que preparam pessoas olhando para a realidade do século passado, e não focam o presente, muito menos as tendências do futuro.
Como exemplo do que afirmei acima, destaco que em salas de aula, especialmente nos cursos superiores, ao contrário de estimularmos os alunos à leitura, pesquisas e discussões, ainda estamos enchendo o quadro, que não é mais negro e não se utiliza mais giz – talvez uma das poucas mudanças da educação de hoje, para a de ontem – de números e letras, tudo encontrável em livros e em diversos trabalhos técnicos e científicos disponíveis na internet, que poderiam ser utilizados para estimular as discussões, deixando as aulas de serem monológicas para serem dialógicas. Gracejo, sempre, ao afirmar que celular, também, serve para aprendermos em salas de aula, e não somente para acessarmos Facebook, Instagram, WhatsApp e outras mídias sociais.
Daniel Susskind, na referida entrevista, chama a atenção para que não venhamos mais discutir o futuro do trabalho a partir dos diferentes empregos ou profissões, como cita: advogados, médicos, professores, contadores etc. Afinal, afirma, ele, não podemos mais pensar o trabalho de forma monolítica, como bloco de coisas indivisíveis. Não temos dúvida, afirmo, que as novas tecnologias, inclusive a robótica, como afirma Daniel, não irão destruir profissões inteiras de uma vez, e sim mudar as tarefas e atividades que as pessoas hoje realizam.
A propósito das afirmações constantes no final do parágrafo anterior, lembro, sempre, em salas de aula na UFMA, que, quando cursava os Cursos Técnicos em Contabilidade e Administração, no Colégio São Luís, à noite, entre 1968 a 1970, fui questionado por um querido professor, tendo presente a minha péssima caligrafia. Afirmava o competente e estimado professor que jamais eu seria um contador, em que pese ser um excelente aluno de contabilidade, na sua bondosa visão à época. Disse a ele, incontinenti, que a escrituração contábil, já naqueles tempos, era efetuada através das máquinas, e com certeza evoluiríamos, para a automação, sendo dispensável que o contador tivesse boa letra, para “bordar” os livros contábeis, antes utilizand o o famoso livro “borrador”. Afirmei, ainda, na ocasião, o que continuo a afirmar hoje, ao contador é imperioso ter um conhecimento multidisciplinar. Graças a Deus, as ciências contábeis não são monolíticas, desde aqueles tempos, pois tínhamos disciplinas, no Curso Técnico em Contabilidade, de Direito e Legislação Aplicada, Direito Comercial, Economia Política, Matemática Financeira, Administração, afora outras. No Curso de Ciências Contábeis, tivemos que estudar, face ao conteúdo curricular, Sociologia, Lógica, Filosofia, Antropologia, Economia I e II, Microeconomia, Contabilidade Nacional, hoje Social, Mercado de Capitais, Administração, Noções de Direito Civil, Direito Financeiro, Tributário, Trabalhista, Estatística I e II, Cálculo I e II, Matemática Financeira, com fo co em Engenharia Econômica, Informática e, como sempre brinco, até diversas disciplinas de Contabilidade e Auditoria.
Não tenho a menor dúvida de que o conteúdo aprendido, pode ser considerado, verdadeiramente, multidisciplinar, aprendizado esse não somente em sala de aula e, sim, complementarmente – em que pese a excelência dos meus professores, que se tornaram amigos, sendo sempre lembrados e homenageados. Ademais, afirmo que a aprendizagem foi por demais importante para o nosso desempenho profissional, em todos os momentos do exercício profissional, inclusive, hoje, como professor.
Recentemente, em um evento social, conversando com um casal de amigos médicos, veio à tona a preocupação com o futuro das profissões, especialmente da área médica. Não tenham dúvidas, a exemplo de diversas outras profissões, novas tarefas surgirão, e novas habilidades deverão ser necessárias. Como ilustração, destaco que ao longo do “Milênio”, Bocanera e Daniel afirmaram que os diagnósticos de várias doenças, inclusive câncer, já estão sendo feitos por máquinas, com muito mais    precisão, acerto e rapidez do que o melhor e mais experiente oncologista, segundo eles. Citaram, inclusive, o computador da IBM, Watson, como um instrumento potente para diagnósticos de doenças.
Por consequência do exposto, os governos, empresas e instituições de educação, em suma, a sociedade, deverá estar atenta para as novas tecnologias, diante das mudanças que impactarão os mercados de trabalho, demandando perfis profissionais completamente diferentes do que temos hoje, em todas as profissões. Um bom começo, seria seguir, pelo menos, o conselho de Daniel Susskind: não tente concorrer com a máquina, ela faz muito melhor que você; tente especializar-se naquilo que a máquina não faz. Por essa e outras razões, deixei de me preocupar, há mais de 47 anos, com a minha péssima caligrafia, para atuar na minha profissão, caro amigo e saudoso professor, que após a conclusão do meu Curso Técnico em Contabilidade, convidou-me, nos idos anos 1970, para tomar conta da pa rte contábil do seu escritório, ele que já enveredara, sabiamente, por outras competências do seu domínio profissional.  Naqueles tempos, o meu querido e saudoso professor, já se preocupava e adotava o “reemprego”.

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