O Nobel de Economia e as pessoas

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José Cursino Raposo Moreira

Economista

moreiracursino@gmail.com

A concessão do Prêmio Novel de Economia de 2017 ao professor Richard Taler, da Escola de Negócios da Universidade de Chicago, pelas suas pesquisas sobre o comportamento humano na tomada de decisões econômicas, vem mostrar que a ciência econômica tem muito a dizer sobre o cotidiano das pessoas.

Trata-se que o premiado de 2017 pertence a uma linha de pesquisadores que mais recentemente passou a compreender que o estudo da economia depende do comportamento humano, devendo incluir nos seus modelos traços de personalidades dos indivíduos como racionalidade limitada, preferências sociais e falta de autocontrole. Tais características são importantes para a economia, pois afetam tanto decisões pessoais quanto do mercado como um todo. Os estudos do professor premiado reforçaram as evidências de que as pessoas, ao tomar decisões econômicas, não consideram todas as alternativas possíveis e- em parte por isso- não conseguem vislumbrar todas as consequências de longo prazo de suas ações. Assim, suas escolhas nem sempre trazem o melhor retorno econômico possível para elas próprias e para a sociedade como um todo.

De outro lado, tal forma de pensamento afeta premissas anteriores segundo as quais os indivíduos têm vasto acesso a informações e, com base nelas, tomam as melhores decisões possíveis. A consequência fundamental desta inversão de pensamento é reorganizar a agenda de pesquisas da economia, rever seus conceitos geralmente aceitos e seu próprio ensino, incorporando as novas descobertas realizadas ao seu portfólio de conhecimentos.

Várias gerações de economistas se formaram na linha de pensamento da “racionalidade total” e o estudo da economia nos últimos 100 anos, aproximadamente, modelou o consumo humano como fruto de decisões racionais das pessoas ante sua “restrição orçamentária”, isto é, seu poder aquisitivo, tornando “máxima sua satisfação” nas condições dadas de mercado. Desse modo, a ação humana fora desse paradigma acabaria se constituindo em uma espécie de “patologia do consumidor” que contemporaneamente é denominada como “consumismo”, isto é, o seu comportamento fora dos padrões racionais, fundamentos de seu estado “normal”. Ao consumidor que assim se conduz cabe a definição algo pejorativa de “consumista”.

Esta visão do comportamento humano na sua condição de agente econômico deu ensejo inclusive ao aparecimento de estratégias de ajuda ao consumidor, voltadas a objetivar e racionalizar ao máximo suas atitudes através de processos de educação financeira, que floresceram recentemente. Visa-se nestas circunstâncias alertar, treinar e condicionar os indivíduos a atitudes que o livrem das “armadilhas” colocadas em sua trajetória de ser dotado de necessidades e exposto a apelos do marketing.

Como ficam as coisas, então, depois que a Academia Sueca chancela, com o prestígio de seu reconhecimento, ideias contrárias a esse mundo de certo modo ideal da racionalidade extrema no comportamento econômico? Como sempre acontece no âmbito científico, o novo status alcançado sofrerá o teste de novos estudos, que irão confirmá-lo ou modificá-lo, fazendo avançar o conhecimento para novas fronteiras. Portanto, deve-se comemorar a premiação do Nobel de Economia de 2017 por reconhecer avanços inovadores realizados na ciência nas últimas décadas e por abrir perspectivas para novas conquistas na ciência econômica.

 

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