Centro Histórico de São Luís e a economia criativa

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Manoel Rubim da Silva. Contador. Auditor-Fiscal da Receita Federal do Brasil, Professor no DECCA-UFMA. Endereço do Currículo Lattes: http://buscatextual.cnpq.br/buscatextual/visualizacv.do?id=K4463346A9

São Luís do Maranhão dispõe de um potencial muito grande para o turismo cultural, não devidamente explorado; dúvidas para mim não restam.  Por diversas vezes, expressei esse entendimento, em artigos publicados na imprensa local, sendo que alguns constam do nosso livro “Crônicas para Cândida – Paisagens Sociais e Culturais: São Luís Capital Brasileira da Cultura”. Todavia, acredito que tenhamos perdido algumas oportunidades para deslanchar essa aliança, entre cultura e turismo.

Afinal, São Luís e a cultura do Maranhão tiveram alguns reconhecimentos, neste país e no Mundo, tais como: Patrimônio Mundial da Humanidade, concedido pela Organização das Nações Unidas para a Educação, Ciência e a Cultura (UNESCO), em 6 de dezembro de 1997; Capital Brasileira da Cultura, em  2009, sendo a primeira capital de um Estado brasileiro a obter tal reconhecimento; Capital Americana da Cultura, em 2012, coincidindo com as comemorações dos 400 anos de fundação de São Luís; registro do Tambor de Crioula como Patrimônio Imaterial Cultural do Brasil, em 2007;  o Bumba-Boi como Patrimônio Imateri al Cultural do Brasil, em 2011, havendo a possibilidade de que venha a ser reconhecido, pela UNESCO, como Patrimônio Cultural da Humanidade, estando o processo em andamento. Além do mais, São Luís é conhecida como a Capital Brasileira do Reggae, face à prevalência desse ritmo nas baladas da nossa Ilha.

Bom, o fato sobranceiro é que todas essas oportunidades não foram devidamente aproveitadas, por falta, acredito, de um planejamento consequente. Aliás, foi noticiado, há alguns anos, que consultores, com experiências internacionais, teriam sido contratados para elaborar um planejamento que inserisse a nossa cidade nos roteiros turísticos nacionais e internacionais. Com a palavra os proprietários de restaurantes e hotéis de São Luís, observando que, em épocas de festejos, quer carnavalescos, quer juninos, os restaurantes têm poucas frequências, pois, sem turistas e com os ludovicenses brincando os carnavais e nos arraiais, os restaurantes ficam às moscas. No que respeita a hospedagens, inobstante a proliferação de hotéis e pousadas nos últimos anos, tais estabelecimentos convivem, ao longo do ano, com baixa ocu pação.

A propósito da pouca divulgação das nossas potencialidades turísticas e culturais, destaco que, há aproximados onze anos, ciceroneando   uma Professora Universitária em Lisboa, Doutora em Assuntos  Tributários, prestando serviços à Comunidade Econômica Europeia, que aqui esteve, ministrando uma palestra, ouvi ela afirmar o seguinte – após ficar encantada com o que viu, em se tratando de Patrimônio Arquitetônico e Cultural de São Luís: “lamento que na Europa,  em se tratando de cidades turísticas brasileiras, somente, temos informações sobre Natal, Recife, Salvador e Rio de Janeiro; São Luís, inobstante a sua riqueza cultural e arquitetônica, que e stou testemunhando, não é conhecida na Europa; voltarei, com a minha família, para visitar esta bela cidade, cujo Centro Histórico, lembra a parte antiga de Lisboa”.

Entendo, sinceramente, que não serão atos isolados, como programas musicais e feiras nas praças, em locais dentro dos limites do nosso Centro Histórico, e outros do mesmo jaez, que irão preservar o nosso “Sítio Histórico” e alavancar a economia criativa do nosso Estado, refletindo, positivamente, no turismo e, como um todo, na economia maranhense. Urgem providências estruturantes e não tópicas.

Como exemplo, lembro-me de propostas que fiz em vários artigos que publiquei, na imprensa local, constantes do livro da nossa autoria, “Crônicas Para Cândida: Paisagens Sociais e Culturais – São Luís Capital Brasileira da Cultura”, lançado em setembro de 2009, com os seguintes títulos: “AH! SÂO LUIS”, publicado no jornal  “O Estado do Maranhão”, em 8 de setembro de 2005; “O Maranhão na Rota do Turismo Internacional”, no “Jornal Pequeno”, em 31 de julho de 2006; “A  Carta de Veneza e o Patrimônio Cultural de São Luís”, no  “Jornal Pequeno”, em 07 de abril de 2008; “Louvando São Luís”, no Jornal Pequeno, em 16 de março de 2009; “Revitalizando o Centro Histórico”, também, no “Jornal Pequeno”, em 30 de março de 2009.

Entre outras, propus, nos referidos artigos, que viéssemos aproveitar o nosso “Centro Histórico” para lá instalar “Casas Culturais”, nas quais poderiam ser evidenciadas a vida e a obra de escritores, jornalistas, poetas, compositores, músicos, pintores, em suma, artistas de todas as artes, que se destacaram no Brasil e no Mundo, e que tenham origens maranhenses.

Afinal, acredito que ficariam melhor agasalhados do que na Praça do Pantheon, onde os bustos foram vandalizados. Por pertinente, destaco que a proposta de “Casas Culturais” toma como exemplo a “Casa de Cultura Josué Montello”, na qual, não somente o busto ou fotos, assim como a história da vida e as obras desse grande intelectual maranhense estão preservadas e disponíveis para apreciação.

Por outro lado, poderíamos ter, no “Centro Histórico”, áreas com “Casas Culturais” alusivas às regiões geoeconômicas deste Estado, nas quais as culturas, no sentido antropológico do termo, dos municípios integrantes, seriam expostas e/ou negociadas em lojas,  restaurantes, museus, locais para shows, documentários e palestras, pois, com certeza, tais casas seriam frequentadas pelas pessoas que moram, neste Estado e alhures, com origens nas respectivas regiões geoeconômicas. Observem que, nesse particular, além de servirem como espaços culturais nos quais aconteceriam esses encontros, serviriam, também, para a divulgação dos aspectos turísticos dos Municípios deste Estado, até mesmo com a venda dos produtos das regiões, principalme nte, do artesanato, artísticos etc.

Obviamente que um projeto dessa envergadura deveria contar com uma equipe interdisciplinar, para o competente planejamento. Em se tratando de recursos, em que pese a penúria de recursos públicos, atualmente vigente, poderíamos recorrer ao Banco Nacional de Desenvolvimento Econômico e Social, BNDES, assim como ao Banco Interamericano de Desenvolvimento, BIRD, órgão do Banco Mundial, já que o PAC das Cidades Históricas deve estar sofrendo com a penúria dos recursos públicos.

Por outro lado, os custos para a manutenção dessas estruturas, pelo menos no que respeita às “Casas Culturais”, por regiões geoeconômicas do Estado, poderiam ser suportados pelos Municípios, através de uma gestão compartilhada. Acredito, até mesmo, que bem administradas, essas “Casas Culturais” poderiam até ser autossustentáveis, não se excluindo a ideia de arrendamento dos espaços para exploração por entidades com ou sem finalidades lucrativas.

No momento, mais uma oportunidade se apresenta, para que possamos dar sentido ao título de Patrimônio Mundial concedido ao nosso “Centro Histórico”, pois, conforme destaca a jornalista da “Folha de São Paulo”, Mônica Bérgamo, nos dias 13 e 14 do corrente mês, o Instituto do Patrimônio Histórico e Artístico Nacional (IPHAN) vai reunir os Ministros da Cultura, Turismo, Meio Ambiente e das Cidades, assim como 14 prefeitos brasileiros, no Seminário Internacional sobre Gestão de Sítios Culturais do Patrimônio Mundial do Brasil, com a participação de especialistas estrangeiros de cidades reconhecidas como patrimônio pela UNESCO, na Europa e na América Latina. Os sítios históricos de São Luís, juntamente, com Ouro Preto, Salvador, Diamantina, Olinda, Serra da Capivara, Pampulha em Belo-Horizonte foram citados na matéria, constante do endereço eletrônico: https://www1.folha.uol.com.br/colunas/monicabergamo/2018/08/iphan-vai-reunir-ministros-e-prefeitos-para-discutir-gestao-de-patrimonio-mundial.shtml.

Logo, configura-se imperioso que São Luís tenha um projeto estratégico para a preservação do seu “Sítio Histórico”, que passa, necessariamente, por políticas públicas nas áreas da cultura, turismo, habitação, urbanismo, meio-ambiente e indústria e comércio, envolvendo, inclusive, a iniciativa privada. Não temos mais espaço para improvisações e projetos tópicos, que nada resolverão, e, sim, agravarão, com o passar do tempo, os notórios problemas do nosso belíssimo patrimônio mundial cultural, que não diz respeito, somente, a belíssimos prédios antigos, pois tem um alcance muito maior, envolvendo patrimônios imateriais culturais, que poderão ser fontes geradoras de renda, sob os cânones da Economia Criativa.

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